A revista internacional Cinema & Território associa as artes visuais à antropologia e à noção de territorialidade. No âmbito desta linha principal é abrangida a reflexão científica de carater performativo nas áreas da dança, da música e do teatro.

A originalidade da antropologia visual é que contraria o paradigma antropológico tradicional: a linguagem. No entanto, a linguagem verbal de uma cultura não se adapta para descrever outra cultura. O método visual alarga o vocabulário verbal considerado impreciso para descrever emoções, gestos, posturas, interações… como, por exemplo, uma dança: só imagens podem mostrar toda a poesia dos movimentos dos corpos, harmonia das cores, a originalidade dos trajes, as mudanças de ritmo e a música que a acompanha. As palavras limitam-se a descrever gestos e movimentos sem, no entanto, revelar o encanto do momento.

O cinema e a antropologia têm em comum o facto de observarem e de se apropriarem do ser humano, pela imagem. Cineastas, fotógrafos, etnólogos são sensores de momentos e de histórias cujo olhar é confrontado com a complexidade da representação do Outro – representação pictural, mental, social e/ou íntima. Este “objeto”, destacado pelo profissional das imagens insere-se num quadro – quadro da lente da câmara ou quadro paisagístico, produzindo um espaço delimitado partilhado pelos atores – um território cinematográfico.

Hoje, o cinema parece, mais do que nunca, interpelado pela questão do território, da sua travessia e dos seus limites. Decerto que, a mobilidade marcou o cinematógrafo desde o seu nascimento: mobilidade da imagem (fotografia em movimento), mobilidade de temas filmados, mecânicos, animais, humanos (cavalos galopando, humanos atravessando a praça, comboios chegando à estação), mobilidade da câmara (travellings e outros panorâmicos), mobilidade de operadores (Francis Doublier, um dos operadores que viajou pelo mundo para recolher imagens – Munique, Berlim, Varsóvia, S. Petersburgo – juntou-se a Felix Mesguich, operador de Louis Lumière: « J’allais dans toutes les villes du monde où il y avait l’électricité »[1]).

Esta passagem fronteiriça continuou na história do cinema, particularmente no domínio da distribuição cinematográfica, permitindo tanto um maior conhecimento do cinema (fronteiras horizontais), como uma distribuição, por vezes, desigual da produção (fronteiras verticais). De facto, há um arrojado renascimento cinematográfico vindo do “Sul” (do Terceiro Mundo por oposição ao “Norte” dos países ricos), de contextos económicos e institucionais pobres. Caminhando pelo espaço, forma de expressão da exploração de novos territórios, é seguida por muitos jovens cineastas mediterrâneos e asiáticos (Argélia, Irão, Índia, Tibete) cujas obras são, muitas vezes, classificadas como “cinema experimental” por terem saído do quadro formatado do “cinema cultural”.

O filme move-se ainda mais depressa, porque perdeu a materialidade (numerização da cadeia de produção, montagem e projeção), mas os próprios realizadores, atores, técnicos, migram constantemente de acordo com várias modalidades e motivações (económicas, políticas e estéticas, entre outras).

A própria poética do filme foi afetada. As fronteiras geográficas já não são as únicas a serem postas em questão; as de géneros (documentário/ficção, curta/longa metragem, experimental/comercial, moderno/clássico, incluindo novos formatos utilizados nas redes sociais) até a questão existencial do próprio filme (vd. a questão do crítico de cinema André Bazin, O que é o cinema, hoje?) enquanto arte específica, moveram-se, cruzando as fronteiras que, outrora, separavam, por exemplo, a música, a literatura, o teatro e as artes plásticas.

O conceito de Território – multidimensional – permite interrogar os profissionais do visual e da imagem sobre as diversas formas de produção de espaços (Henri Lefebvre) cinematográficos – tanto enquanto espaço de mediação artística, como de poder (cinema político, económico e cultural).

A Direção
A Comissão Científica

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Bazin, A. (1961). « Qu’est-ce que le cinéma ? ». Cinéma et Sociologie. t. III. In Communications, 1, 1961. pp. 211-220.
Lefebvre, H. (1974) « La production de l’espace ».  L’Homme et la société, N. 31-32, 1974. Sociologie de la connaissance marxisme et anthropologie. pp. 15-32. DOI : https://doi.org/10.3406/homso.1974.1855

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[1]  Cité par Michaël Mandl, in Inédits du cinéma muet, Archives MM ©, 2017.


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